Profa. Maria José (Uern) é convidada do Fé em Debate “As religiões e as mulheres”

O dia das bruxas está chegando e com a live do Fé em Debate especialmente dedicado para a data: “As religiões e as mulheres”. Para debater o assunto convidamos a Profa. Dra. Maria José da Conceição Souza Vidal, doutora em Filosofia e professora do Curso de Ciências da Religião da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (Uern), Campus de Natal.

Em um bate-papo prévio, profa. Maria José adianta algumas questões que serão trabalhadas durante o debate (confira abaixo). E lembre-se, o Fé em Debate vai ao ar às 15h do próximo sábado (31.10).

Você pode assistir no canal do YouTube do curso de Ciências da Religião da UERN:

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Ciências da Religião – A live acontecerá, propositalmente no dia das bruxas, qual a provocação que você fará acerca da relação proposta entre mulher, religião e dia das bruxas?

Profa. Maria José – Inicialmente devemos lembrar que a origem mais antiga do dia das bruxas é europeia, a partir de um festival pagão de origem Celta, onde se comemorava o fim do verão e a celebração da colheita em abundância. Nesse, era comum a prática de rituais de adivinhações que envolvia a agricultura, utilizava a fogueira e homenageavam o rei dos mortos. Nessa perspectiva, o termo bruxa fora atribuído a uma mulher ou pessoa que conhece os mistérios, uma iniciada nos segredos da natureza e do cosmos, podendo ser também chamada de maga ou sacerdotisa em religiões pagãs, como a religião de gnose, vista como rival pelos cristãos. A igreja Católica passou a proibir os cultos pagãos, a atacar seus membros e denominavam suas práticas de “abominações demoníacas” e que estas deveriam ser exterminadas. Muitas mulheres foram condenadas ao assassinato nas fogueiras da Inquisição, acusadas de hereges, por bruxaria e paganismo. Fazendo uma análise e uma analogia aos dias atuais, quando pensamos as mulheres, as religiões e o que significou ser bruxa nesse contexto, percebemos as dificuldades em lidar e conviver com as diferenças, a intolerância, a falta de respeito as diversidades e a imposição de verdades de forma violenta, inclusive pelas instituições. Hoje quem são as bruxas na atualidade? Quais são outras questões que podem fundamentar essa perseguição as bruxas no processo histórico?

Ciências da Religião – Ainda pegando o gancho do dia das bruxas, na sua opinião qual a importância de Joana Dark para a igreja, para a história e para representação feminina?

Profa. Maria José – Joana Dark foi uma mulher que provocou mudanças, vivenciou-as e marcou a sociedade da época e a posteridade com sua trajetória. Sua história deve ser analisada sob o aspecto político, religioso e também do valor, da forma como foi sua vida para as mulheres. Há cem anos a Igreja realizou a canonização de Joana Dark, quase cinco séculos após ser assassinada viva pela Inquisição. Esse processo teve no contexto também um sentido político para a França. A Guerreira que lutou para salvar os franceses da invasão inglesa, na chamada Guerra dos 100 anos, tem o seu destaque na história justamente por ser uma mulher num lugar onde as mulheres não costumavam estar. Afirmava obedecer às vozes que traziam mensagens de Deus, a ela, uma jovem mulher, que se transformaria na líder nos campos de batalha e vestida de homem. Por razões políticas e religiosas, Joana Dark foi condenada, para invalidar o rei, deslegitimaram a guerreira, sob acusação de bruxaria, de heresia, por ouvir vozes que segundo a acusação seriam do demônio e por vestir-se como homem, algo inadmissível para a feminilidade.

Ciências da Religião – A mulher tem sido frequentemente vista como figura associada ao mal e ao pecado dentro das religiões. Qual o porquê disso e quais as consequências que isso implica na atualidade?

Profa. Maria José – O que significa o mal? O que significa o pecado? A resposta de imediato nos remete ao diferente, ao que não se subordina, ao outro e esse outro não reflete obediência, mas uma rebeldia, daí se faz o juízo de valor e lhe atribui maldade. A mulher é esse outro, a quem lhe foi imposto uma maldade para justificar uma opressão “natural”, para servir aos sistemas: patriarcado e capitalismo. O pecado condena o que pode possibilitar a mulher a liberdade, o prazer tem de ser algo proibido e o corpo não lhe pode ser seu território. As opressões que as mulheres têm vivenciados são históricas, para que essas não exerçam seus papéis na sociedade ou permaneçam invisibilizadas, tendo um lugar subalterno na vida e no mundo. Vivemos ainda na contemporaneidade tabus na sociedade, por razões de crenças, por falta de informações, o machismo ainda se estrutura na sociedade de forma perversa e violenta, os assassinatos de mulheres, os feminicídios, a negação de suas cidadanias através da retirada de direitos básicos, e tantas outras formas de opressão. Para a superação dessa realidade se faz necessário o comprometimento com uma cultura de paz e com um projeto de sociedade onde todas as pessoas sejam respeitadas em suas singularidades, com garantias de direitos, igualdade de oportunidades e mulheres possam viver livremente.

Ciências da Religião – Como você vê a atuação do feminismo nas religiões?

Profa. Maria José – No processo histórico o feminismo tem possibilitado muitas mudanças nas nossas vidas, muitas conquistas se deram com lutas e enfrentamentos, quebrando padrões e desafiando os sistemas impostos. No campo religioso, a participação das mulheres nas igrejas e em muitas religiões, são a base de sustentação, mas elas não têm ainda o poder nesse campo. Há transformações, é fato. Um caminho de autonomia está em construção, numa via de despertar, a exemplo das mulheres Católicas pelo Direito de Decidir que lutam pela descriminalização do aborto, mas outros também podem ser apontados na Umbanda, no Candomblé, onde as mulheres têm buscado cada vez mais espaços de representação e de decisão. Nesse sentido, podemos afirmar que as lutas do feminismo como um todo que tem alterado as relações sociais, econômicas e de poder, também tem operacionalizado alterações nas ideias de como as mulheres são vistas e como estas se percebem no campo religioso, afetando assim as religiões e as relações de gênero.

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Nesse dia das bruxas separamos um *Fé em Debate LiVE* para conversar sobre a controversa relação entre _*Religiões e Mulheres*_, discutindo as provocações feministas feitas às religiões e recebendo a autora do livro *Mulher, Pra Que Religião?*, que analisa os conselhos conservadores da Pastora Ana Paula Valadão PRESENÇAS: – _Profa. Dra. Nina Rosas (UFMG)_ – _Profa. Dra. Mª José Vidal (UERN)_ MEDIAÇÃO: – _Prof. Dr. Genaro Camboim (UERN)_ Gostou? Então se inscreva no canal e guarde o link que no Halloween a gente se fala 🎃👍🏽 __________________________________ 👩🏽‍💻 *Fé em Debate LiVE* 📆 31 de outubro (sábado) ⏰ 15h (Horário de Brasília) 🎥 https://youtu.be/7MQnK9a16S8 📖 Link para o livro de Nina Rosas: https://www.amazon.com.br/Mulher-pra-que-religi%C3%A3o-conservadores-ebook/dp/B08FBQP88K

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